Hoje, almoçando com amigos, o assunto na mesa girou em torno das maneiras de deixar o filhote para trabalhar. Uma das presentes, também mãe, contava de sua experiência com a creche da USP, onde seu filho de um ano e dois meses está matriculado. Mal saiu do período de adaptação e a creche entrou em greve. Mas antes disso esta mãe confessou que ficou bastante mal impressionada com a instituição, que para ela pareceu um depósito de bebês. Nenhuma atividade é destinada a eles e, segundo ela, pouca atenção lhes é dada. Apenas se chorarem...
Lembrei de outra amiga que conseguiu no começo do ano vaga para a filha, que tem a mesma idade, numa creche municipal. Logo de cara ela estranhou o cardápio, com frutas apenas duas vezes por semana e sobremesas cheias de açúcar, como arroz doce. Para evitar que a filha comesse guloseimas, antes de ter condições para isso, teve de obter um atestado médico. E, assim, a menina passou a comer bolacha de água e sal enquanto os outros se lambuzam com os inocentes docinhos... Outro problema da tal creche é a ausência de espaço onde tomar sol. Desde que foi matriculada a menina já teve várias doenças e, por conta disso, ficou três meses sem ganhar peso. Até que o pai perdeu o emprego e passou a cuidar da filha.
O fato de eu ter uma bolsa de doutorado, não ter trabalho fixo e o pai ser profissional liberal e poder definir seus horários nos permite ter o privilégio de cuidarmos, nós mesmos, da O. No entanto, quando o doutorado (e a bolsa) terminarem, terei de encontrar outra forma de remuneração. E então, o que faremos com a O.?
Esta dúvida tem me angustiado bastante. Os pediatras acreditam ser melhor para o bebê evitar frequentar escolinhas e creches até os dois anos de idade, quando o sistema imunológico da criança está mais maduro para defendê-la das doenças e ela é capaz de interagir com as outras crianças. A alternativa seria uma babá? Não gosto da idéia de um estranho cuidar de minha filha, no papel que deveria ser meu e do pai. Não é por ciúme não. O fato é que criança dá trabalho e acho muito difícil que uma pessoa cuide bem de um bebê, varie a alimentação, evite televisão e não perca a paciência. Pode até ser que haja profissionais capacitados para isso, mas acredito que eu não poderia pagar o que merecem. E, mesmo que pudesse, acho importante que essa pessoa seja supervisionada por alguém da família, só que não temos ninguém por perto para tal finalidade...
Mas a hora de me separar da O. vai chegar, mais dia menos dia, e teremos de encontrar alguma solução. Qualquer escolha tem prós e contras, portanto teremos de refletir muito sobre o impacto de cada uma no desenvolvimento da nossa filha. Tarefa bem dura essa...
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quinta-feira, 2 de julho de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
As crianças aprendem o que vivenciam
É chocante verificar o grau de abandono da infância em nosso país.
No (excelente) documentário "Criança, a alma do negócio" vê-se que as crianças brasileiras são as que mais passam tempo diário em frente à tv (quase 5 horas por dia, em média), tempo este maior do que o que passam com os pais. Não é difícil imaginar quem, ou o quê, está educando os pequenos.
No caderno Mais da Folha de hoje há fotos da pequena apresentadora Maísa chorando (sim, ela chora em público além de ser constantemente humilhada pelo seu patrão, ninguém menos que Silvio Santos). Maísa mal completou 7 anos... O que faz o conselho tutelar que ignora tal abuso? Quantos pais e filhos não assistem, passivamente, a esta significativa exploração da menina ao vivo e à cores, todas as semanas?
Esta semana, num condomínio de luxo aqui em São Paulo, M. presenciou uma mãe sair de seu imenso SUV e gritar histericamente com o filho de pouco mais de 5 anos, que também foi surrado. Em público. A violência contra as crianças independe de classe social, nisso somos bastante democráticos. E não se restringe à esfera da vida privada, já que a mãe não aparentava estar constrangida dando um "corretivo" no filho.
Crianças são indivíduos em formação. Aprendem tudo o que ensinamos à elas, ou o que deixamos de ensinar. Os exemplos que os adultos têm dado aos pequenos em nossa cultura são o de que não merecem consideração (por isso são abandonados em frente à tv), podem ser ridicularizados para deleite dos mais velhos (tal como Maísa) e devem covardemente abusar dos mais fracos, daqueles que não podem se defender (já que surrar uma criança é sinônimo de educar por aqui...). Não estamos muito atentos às consequências destes atos quanto à formação dos futuros cidadãos da nossa sociedade, como nos ensina este poema de uma educadora americana, que inclusive dá o nome a este post.
No (excelente) documentário "Criança, a alma do negócio" vê-se que as crianças brasileiras são as que mais passam tempo diário em frente à tv (quase 5 horas por dia, em média), tempo este maior do que o que passam com os pais. Não é difícil imaginar quem, ou o quê, está educando os pequenos.
No caderno Mais da Folha de hoje há fotos da pequena apresentadora Maísa chorando (sim, ela chora em público além de ser constantemente humilhada pelo seu patrão, ninguém menos que Silvio Santos). Maísa mal completou 7 anos... O que faz o conselho tutelar que ignora tal abuso? Quantos pais e filhos não assistem, passivamente, a esta significativa exploração da menina ao vivo e à cores, todas as semanas?
Esta semana, num condomínio de luxo aqui em São Paulo, M. presenciou uma mãe sair de seu imenso SUV e gritar histericamente com o filho de pouco mais de 5 anos, que também foi surrado. Em público. A violência contra as crianças independe de classe social, nisso somos bastante democráticos. E não se restringe à esfera da vida privada, já que a mãe não aparentava estar constrangida dando um "corretivo" no filho.
Crianças são indivíduos em formação. Aprendem tudo o que ensinamos à elas, ou o que deixamos de ensinar. Os exemplos que os adultos têm dado aos pequenos em nossa cultura são o de que não merecem consideração (por isso são abandonados em frente à tv), podem ser ridicularizados para deleite dos mais velhos (tal como Maísa) e devem covardemente abusar dos mais fracos, daqueles que não podem se defender (já que surrar uma criança é sinônimo de educar por aqui...). Não estamos muito atentos às consequências destes atos quanto à formação dos futuros cidadãos da nossa sociedade, como nos ensina este poema de uma educadora americana, que inclusive dá o nome a este post.
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